Cientistas descobriram que sintomas neurológicos frequentes na Covid longa, como falta de motivação, lentidão de raciocínio, problemas de memória e cansaço físico, podem estar associados com alterações no sistema de dopamina do cérebro.
Segundo o estudo, publicado na revista científica eBioMedicine, diversas pessoas que tiveram Covid-19 enfrentaram sequelas da doença por meses ou até anos. Com o objetivo de entender melhor os casos, pesquisadores usaram exames de imagem para descobrir se o vírus teria danificado os neurônios responsáveis por produzir dopamina.
Para isso, foram examinados 24 adultos com Covid longa que desenvolveram apatia, fadiga e névoa mental após uma infecção leve ou moderada por Covid-19. Eles compararam esses pacientes com 24 pessoas saudáveis da mesma faixa etária e, mais tarde, expandiram a amostra para análises adicionais.
Durante o processo, foi realizado um exame avançado de tomografia por emissão de pósitrons. O exame utilizou uma substância marcadora para medir a quantidade de uma proteína no cérebro, chamada de VMAT2.
Os resultados apontaram que os pacientes com Covid longa apresentaram uma redução expressiva de 16% a 20% nos níveis de VMAT2 no estriado em comparação com pessoas saudáveis.
No entando, pacientes que se curaram totalmente apresentaram níveis de dopamina normais, fator que comprovou que a perda de dopamina é específica da Covid longa, e não uma sequela inevitável de ter tido o vírus.
Por que os neurônios de dopamina são danificados?
O estudo apontou dois motivos principais no cérebro:
- Defesa do corpo em excesso: após a infecção, o cérebro pode manter uma inflamação prolongada. As células de defesa do cérebro (micróglias) entram em estado de hiperatividade e começam a “cortar” ou destruir por engano conexões nervosas saudáveis de dopamina.
- Portas de entrada para o vírus: os neurônios que produzem dopamina possuem uma grande quantidade de receptores ACE2 (as “fechaduras” que o vírus usa para entrar nas células), o que torna esses neurônios especialmente frágeis durante a infecção.
A redução na quantidade de conexões de dopamina no cérebro foi considerada surpreendentemente alta. De acordo com a pesquisa, a queda é parecida com a que ocorre nos estágios iniciais e moderados da Doença de Parkinson ou de transtornos do sono associados a ela.
O que os cientistas descartaram?
Para ter certeza do achado, os pesquisadores analisaram outros fatores adicionais:
- A perda de dopamina continuou parecida tanto em quem teve Covid há poucos meses, quanto em quem teve há mais de quatro anos (variando de dois a 56 meses no estudo);
- O problema apareceu independente de qual variante do vírus a pessoa contraiu;
- Os testes mostraram que a perda de dopamina não tinha relação com a depressão tradicional;
- Exames de sangue comuns não conseguem medir essa perda, pois a dopamina no sangue vem quase toda de órgãos como rins e glândulas, e não do cérebro.
O que isso muda no tratamento e no diagnóstico?
Até agora, não existiam tratamentos específicos direcionados à causa da Covid longa. Como o problema principal considerado é a falta de dopamina funcionando no cérebro, os médicos agora têm um alvo claro.
Assim, o estudo sugere testar medicamentos em ensaios clínicos para ajudar no tratamento dos pacientes.
Além disso, os cientistas também descobriram que é possível usar uma versão mais simples do exame de imagem. Isso permite utilizar marcadores com maior duração, barateando o processo e tornando o diagnóstico viável em hospitais comuns sem a necessidade de equipamentos complexos.