MATHEUS DOS SANTOS E JÚLIA GALVÃO
FOLHAPRESS
A liderança de Flávio Bolsonaro (PL) sobre Lula (PT) no 1º turno das eleições alimenta o apetite por risco no mercado brasileiro nesta segunad-feira (5). O dólar cai abaixo de R$ 5, enquanto a Bolsa dispara e supera os 200 mil pontos e os juros futuros recuam.
A reação dos ativos ocorre em meio à expectativa de alternância de poder na Presidência da República e de uma condução fiscal mais sólida, na avaliação dos investidores. Esse cenário reduz a percepção de risco em relação aos ativos brasileiros.
O ex-senador Flávio Bolsonaro terminou o 1º turno na liderança, com 47,03% dos votos, ante 45,16% de Lula, atual presidente. Os dois disputarão o segundo turno, marcado para o próximo dia 25. Nunca houve uma virada do segundo colocado na disputa pela Presidência da República no segundo turno.
Por volta das 11h, o dólar recuava 4,52%, a R$ 4,980, enquanto a Bolsa registrava alta de 8,4%, aos 208.311 pontos. Na mínima do dia, a moeda americana chegou a R$ 4,952, em queda de 5,06%, enquanto o Ibovespa, índice de referência do mercado acionário brasileiro, atingiu a máxima de 209.605 pontos, em alta de 9,10%.
É o maior nível intradiário atingido pela Bolsa na história, a caminho de registrar um novo recorde de fechamento, e a menor cotação da moeda desde de maio deste ano, quando encerrou o dia a R$ 4,893.
O movimento de alta também repercute nos juros futuros, que recuam em bloco. A taxa DI de 2027 cede 15 pontos-base, a 13,39%, enquanto a taxa DI de 2029 cai 92 pontos-base.
As taxas dos DIs refletem as expectativas do mercado para a trajetória futura da Selic e do CDI, referência para a remuneração de investimentos.
Parte dos investidores avalia que uma eventual alternância de poder poderia resultar em uma condução fiscal mais sólida, com impacto sobre a percepção de risco em relação aos ativos brasileiros.
Uma percepção de maior controle sobre a trajetória da dívida pode reduzir o prêmio exigido pelos investidores para financiar o governo e, consequentemente, aliviar a pressão sobre a curva de juros. Taxas mais altas encarecem o crédito para empresas e tendem a reduzir a expectativa de lucro das companhias, o que pode pesar sobre a Bolsa.
O movimento também pode ocorrer no sentido contrário. Para analistas, um eventual governo do candidato do PL pode beneficiar os ativos de renda variável.
Ações de bancos, petroleiras e varejistas sobem em bloco durante o pregão. Os papéis da Petrobras avançam mais de 4%, enquanto as do BTG lideram entre os bancos, com alta de 21%. O Magazine Luiza sobe 25%, uma das maiores valorizações do dia.
Para Leonel Oliveira Mattos, analista de inteligência de mercados da StoneX, o desempenho dos partidos de direita foi muito forte e alimenta a expectativa de uma alternância de governo.
“As reações dos agentes do mercado financeiro desde agosto já revelavam uma preferência pela mudança, com a ideia de que Flávio Bolsonaro poderia ser mais conservador em sua política fiscal. Por isso, essa perspectiva hoje causa euforia, diminuindo a percepção de riscos fiscais dos ativos brasileiros e favorecendo o desempenho do real”, afirma.
Rodrigo Marcatti, economista e CEO da Veedha Investimentos, diz que a composição do primeiro turno surpreendeu positivamente o mercado. “O mercado já trabalhava com uma perspectiva positiva para uma eventual vitória de Flávio, mas não esperava uma vantagem tão expressiva no primeiro turno. Por isso, a reação deve aparecer já na abertura, com alta do Ibovespa e valorização do real.”
Instituições financeiras também reagiram à liderança de Flávio. Para o JPMorgan, a expectativa de uma vitória do candidato do PL deve valorizar as ações brasileiras em cerca de 10% a 11%, levar o dólar para entre R$ 4,95 e R$ 5 e provocar um fechamento da curva de juros, movimento observado no pregão desta segunda-feira. Caso a vitória de Flávio se confirme, o banco projeta uma expansão de 20% a 25% no índice MSCI Brazil e dólar a R$ 4,80.
O BTG Pactual projeta que, se Flávio Bolsonaro vencer, as ações brasileiras poderiam voltar rapidamente à média histórica dos últimos dez anos, o que implicaria um potencial de alta de 11% a 20%.
O Goldman Sachs é mais contido e avalia que o segundo turno tende a ser polarizado e que Flávio Bolsonaro parte com uma ligeira vantagem após terminar o primeiro turno cerca de dois pontos à frente de Lula. O banco observa ainda que, pelas pesquisas, os eleitores de Ciro, Caiado, Eduardo Leite e Zema tendem, em maior proporção, a migrar para Flávio, embora parte desses eleitores possa já ter escolhido um dos dois candidatos no primeiro turno.
O desempenho do ex-senador fluminense ocorreu em meio a uma onda de vitórias de candidatos alinhados ao bolsonarismo, com resultados favoráveis nos estados e no Senado que evidenciaram a força do PL e de seus aliados. Nomes da equipe econômica do candidato do PL são bem recebidos na Faria Lima, como a ex-presidente da Caixa Daniella Marques e o ex-ministro de Minas e Energia na gestão de Jair Bolsonaro, Adolfo Sachsida.
Ainda há incerteza sobre a política econômica dos candidatos. Flávio Bolsonaro defende um ajuste fiscal sem mexer na Previdência ou na política de valorização do salário mínimo, enquanto o governo Lula propõe reduzir o ritmo de crescimento dos gastos obrigatórios e aprimorar o arcabouço fiscal. Economistas, porém, avaliam que um ajuste duradouro teria de atingir aposentadorias e benefícios sociais.
No governo de Jair Bolsonaro, pai do ex-senador, o teto de gastos foi furado em R$ 795 bilhões ao longo dos quatro anos de mandato. O montante envolveu a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) Kamikaze, que autorizou uma série de benefícios acima do limite constitucional, como o aumento do Auxílio Brasil e a criação de auxílios para caminhoneiros e taxistas, em 2022.
O governo Lula prevê um déficit de R$ 67,3 bilhões neste ano, ou 0,5% do PIB (Produto Interno Bruto).
Com isso, a dívida bruta do governo geral, que atingiu o maior nível em cinco anos e está em 82,9% do PIB, deve subir ainda mais. Segundo analistas, estabilizar a dívida pública requer um ajuste nas contas de ao menos R$ 250 bilhões nos próximos quatro anos.